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Deficiente auditivo, surdo, Surdo?
(Por Hugo Eiji)
A pergunta que se antecipa no título traz à tona as distensões que marcam o terreno espinhoso onde se movimentam, e conflitam, diferentes representações sobre a surdez. Afinal, o que é ser surdo?
Comumente, a surdez é associada a uma condição patológica, deficiente, incapacitante, que deve ser “curada” por meio de próteses, terapias de fala, treinamentos auditivos e aprendizados de comportamentos ouvintes [1].
À surdez assim (re)tratada não cabe outro esforço senão o da reabilitação, em que o objetivo redentor é a normalização do corpo danificado e a superação da não-audição. A falta, como força-motriz das práticas de correção, sobressai sobre os possíveis, mas inimagináveis, ganhos. Ganhos? Haverá ganhos em ser surdo?
Gestos e falas caritativas, paternalistas e assistencialistas costumam se desdobrar dessa compreensão, tão comum hoje como outrora. Nas entrelinhas dos discursos hegemônicos enredam-se ideias que, menos ou mais visíveis, apequenam, subjugam e achatam os horizontes de muitos sujeitos surdos.
Práticas pedagógicas, políticas públicas, leis de acessibilidade e um vasto corolário fundado em postulados biomédicos decorrem dessas acepções. A surdez é, assim, institucionalizada, patologizada, medicalizada, entremeada por ideários que se forjam naturais no senso comum: e o que se ouve como respostas imediatas e, por vezes, irrefletidas (talvez por soarem “óbvias”) são falas que pretendem a normouvintização [2] e a “inclusão” dos sujeitos surdos a modos dominantes de agir, pensar, sentir e se expressar.
Essas compreensões, aqui descritas com traços de denúncia, não causam à grande parte da população ouvinte um estranhamento sequer: “a surdez precisa ser tratada” é frase que transita fluida, sem grandes constrangimentos, em discursos hegemônicos.
Mas, por parte de muitos surdos e ouvintes ligados às causas surdas, o que se vê e o que se entende sobre a surdez?
Hoje, novas bandeiras são defendidas e conquistadas pelas comunidades surdas. Do coitadinho ao sujeito de direitos, da diversidade à diferença (“diferença” em sua acepção radical, e não como mera continuidade discursiva da deficiência), das exigências da fala ao reconhecimento das línguas de sinais, da reabilitação à valorização de uma identidade cultural própria, e da inculcação de padrões ouvintes à valorização do “ser Surdo”, uma série de rupturas realçaram-se nas últimas décadas.
Novos termos são propostos, antigas ideias são revistas. A urgência de outros olhares evidencia-se pelo fracasso perpetrado por velhas políticas de inclusão, que implicam – e implicaram – inúmeros prejuízos para muitos surdos.
Vê-se, atualmente, o fervilhar das culturas surdas e o empoderamento desses grupos linguísticos minoritários. Intensificam-se as empreitadas políticas, bem como as jornadas pelo direito à educação bilíngue-bicultural. Firma-se, sobretudo, a ascensão de novas demandas sociais.
Por essas perspectivas, a surdez ultrapassa os arames da área biomédica e desloca-se para o domínio dos Estudos Culturais. “Ser Surdo” passa a ser percebido também como um dos vários modos de existir, fundado na experiência visual e no uso das línguas de modalidade viso-motora (as línguas gestuais), legitimando-se mais como um atributo cultural construído historicamente que como uma experiência unívoca e inexorável de um corpo mutilado.
Em nenhum outro momento se falou tanto, tampouco se sinalizou [3] com tanta frequência, sobre culturas surdas. “Culturas surdas”, com os esgares que, para muitos, ainda causa a expressão.
Nesse cenário desenhado sobre novos postulados Surdos, milhares de produções culturais (espalhadas entre o teatro, a literatura, as artes plásticas, o cinema, a dança, a música, etc.) são partilhadas entre numerosas comunidades surdas. A cada dia, novos aparelhos culturais surgem, novas organizações e movimentos se consolidam, novas obras são produzidas, novos símbolos e significados são difundidos.
E se essa efervescência promove a expansão e o empoderamento das culturas e das comunidades surdas, por que, então, pouco se vê sobre essas produções no mainstream ou no cotidiano da maior parte da população ouvinte? Se “inclusão” é hoje palavra em voga, por que os artefatos culturais desses grupos são ainda tão pouco conhecidos, para além de uma visão rasa e, não raro, estereotipada?
Essas e outras perguntas motivam a manutenção deste blog, que pretende ressaltar a riqueza e a complexidade das identidades, comunidades e culturas surdas (clique aqui para conhecer os objetivos do Blog Cultura Surda).
Sobre os textos e posts aqui publicados, vale ressaltar as escolhas lexicais e a repetição intencional do termo “surdo” (ou “Surdo”, com a inicial maiúscula), sem a preocupação estilística de se buscar sinônimos ou sofisticações vocabulares para evitar as muitas aparições da palavra.
“Surdo”, em distinção à “deficiente auditivo” (para alguns, aquele que não reconhece as práticas culturais surdas e que tampouco expressa uma identidade Surda), é palavra usada e preferida por muitos sujeitos Surdos e, ao contrário do que tantos acreditam, não soa depreciativa ou ofensiva. Com uma intencionalidade teórica, estética e política clara, repete-se o termo aqui à exaustão, sem o receio de deixar transparecer uma inabilidade com o manejo da língua.
Também, sublinha-se a condição “ouvinte” do autor, que, mesmo familiarizado com as comunidades surdas (em especial as brasileiras), ainda luta, por meio do esforço diário de minuciosas reflexões, contra uma série de preconceitos. Preconceitos que, por vezes, desvelam-se subjacentes a falas e gestos: investigar, postar e discutir é, assim, movimentar-se no sentido de esmiuçar, pôr a nu e desfazer velhas crenças ainda enoveladas (e enevoadas) nos atos e olhares deste diletante blogueiro-pesquisador.
[1] “Ouvintes”, nesse universo semântico, são todas as pessoas que “ouvem” e que experimentam o mundo também por meio da audição.
[2] A adequação a uma existência pautada por modelos ouvintes.
[3] “Sinalizar” como o ato de enunciação em línguas de sinais.
Cultura Surda?
(Por Hugo Eiji)
Cultura é palavra movediça, dada a diferentes compreensões. A amplitude do conceito, atravessada por uma série de senãos, não raro provoca imbróglios quanto às delimitações e aos usos do vocábulo. Nesse pantanal conceptual, ainda mais problemática é a assumpção da expressão “cultura surda”.
Os dissensos sobre a definição do termo cultura atravessaram os últimos séculos e, ainda hoje, suscitam vozes (e gestos) dissonantes.
“(…) a discussão não terminou – continua ainda –, e provavelmente nunca terminará, pois uma compreensão exata do conceito de cultura significa a compreensão da própria natureza humana, tema perene da incansável reflexão humana” (LARAIA, 2008, p. 63).
Nesse emaranhado de distensões, a afirmação das culturas surdas desafia postulados já muito arraigados no senso comum, que comumente reage assustado à ideia de se compreender a surdez por uma perspectiva sócio-antropológica, para além de abordagens patologizantes.
A afirmação de uma (ou várias) cultura surda implica o reconhecimento de olhares, comportamentos, costumes e práticas específicas de um grupo linguístico minoritário, e faz-se esteio para grande parte das lutas travadas por essas comunidades. Mais que uma empreitada teórica, a celebração das culturas surdas é ponto-chave de uma série de argumentos e bandeiras políticas do povo surdo.
Aqui, sem a intenção de enveredar pelos desdobramentos conceituais do termo, entender-se-á cultura como um conjunto de significados e práticas simbólicas partilhado por um determinado grupo, transmitido e refeito entre diferentes gerações. Cultura assumida não como um estado, tampouco como algo acabado, fechado ou estagnado: mas como um processo (com sua lógica e dinâmica própria) que constantemente se reconfigura nas interações dos sujeitos que a partilham. Como afirma Laraia (2008, p. 49), trata-se de “um processo acumulativo, resultante de toda a experiência histórica das gerações anteriores”.
Fundada em uma estrutura material e atrelada a um determinado contexto histórico, a cultura é produto e produtora de significações e ações humanas – uma dimensão do processo social que conforma modos de ver, pensar e sentir o mundo por meio do aprendizado de esquemas perceptivos e interpretativos específicos. Mais que um sistema integrado de padrões de conduta, cultura é também um conjunto de mecanismos de controle, sujeição e normatização dos indivíduos que a partilham.
A ideia de uma cultura surda funda-se, primeiramente, na afirmação de um modo particular de compreender e expressar a realidade, especificamente proporcionado pela experiência visual e pelo uso de uma língua de modalidade viso-motora (visual-gestual) como configuradora do discurso. Tendo como espaços privilegiados de (re)produção as comunidades surdas, a cultura surda opera como um conjunto de práticas e produções específicas que delimitam um locus de reafirmação cultural, histórica, política e linguística, sustentando e reforçando vínculos e expressões identitárias entre os sujeitos que a compartilham.
O uso da expressão cultura surda, assim, aparece em contexto conflituoso, de resistência às práticas de normalização do sujeito surdo. Se a concepção sócio-antropológica da surdez potencializou as novas compreensões sobre o “ser Surdo” e sobre as línguas de sinais, assim como segue a desvelar as várias formas de opressões ouvintistas exercidas contra esses indivíduos, a afirmação da cultura surda surge como importante força contra-hegemônica que se opõe à aculturação (colonização) audista. É também um posicionamento político que valoriza a possibilidade de realização humana que contempla a diferença. Como afirma Santos:
“Cultura é um território bem atual das lutas sociais por um destino melhor. E uma realidade e uma concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso social e da liberdade, em favor da luta contra a exploração de uma parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e da desigualdade” (SANTOS, 2010, p. 45)


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